Noite Eterna – Parte 4

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Infelizmente o meu caso foi o que mais chamou atenção da mídia. Em vários jornais se via na capa “Jovem acusado de matar dois a facadas na escola”. Os olhos da mídia só me
trouxeram má fama e aceleraram as investigações. Não sei como as únicas digitais que estavam nítidas na faca eram minhas, além de ter sido supostamente pego em flagrante. Ninguém conseguiu reunir provas o suficiente para me mostrar culpado, mas a mídia queria o meu sangue. Somente para obter lucro eles venderam a minha história me mostrando como um monstro. O juiz não queria infâmia e por isso tendia a ficar contra mim. Depois de um bimestre, que seria meu último bimestre do ano na escola, fiquei em prisão domiciliar. No final a população ignorante ganhou. Não é porque uma coisa parece ser que ela realmente é. O juiz acabou cedendo à pressão popular desencadeada pela mídia e me deu voz de prisão. Quatro anos numa maldita prisão para delinqüentes juvenis. É a minha vida jogada no esgoto.

Estou sem amigos, que não confiam em mim e até tem medo. Sem Mariane, eu não a deixo me ver desse jeito. E até sem família, que agora me odeia por ter desgraçado o nome. Estou também prestes a ficar sem liberdade, a polícia bate à minha porta para me escoltar até minha nova casa. A partir de hoje eu sou Fabiano, o assassino. Aceito esse destino e entre na mais profunda das minhas depressões. Não falo com ninguém, nem com guardas e nem com detentos. Isso faz eles terem ainda mais medo de mim e isso é bom. Ninguém me se mete comigo por ter medo. Só que infelizmente a falta de contato com as pessoas aumenta a minha depressão ainda mais. Raramente minha mãe me visita aqui, mas quase não falo com ela por causa da vergonha. Meu destino está selado com desgraça e minha alma se banha com desesperança. Dizem que a esperança é a última que morre, e por isso eu já me considero morto.

Um dia me chega uma visita inesperada. O guarda me chama e manda eu me apressar que tem uma garota querendo me ver. O primeiro pensamento é que é Mariane. Ela deve ter vindo me ver mesmo que eu tenha pedido para que ela não venha. Isso significaria que ela realmente me ama de volta. A minha esperança volta no caminho para a sala aonde eu a encontrarei e com isso a minha vida.

Chego à sala e… A garota me esperando não é Mariane. É Júlia, a menina fotógrafa. Por que será que ela veio me visitar? Nunca fui muito amigo dela, somente convivia com ela. Essa é, com certeza, uma visita inesperada.

-Júlia? O que você veio fazer aqui?

-Com licença, senhor, eu queria ter uma conversa particular se não se importa. – Ela me ignora e fala para o guarda que está encostado na porta.

-Com certeza… Tudo pra você, princesa  – Ele responde com deboche, mas sai da sala e nos deixa a sós. Ela espera o guarda sair e começa a responder a minha pergunta. – Eu vim te ajudar a sair daqui.

– Sério! Nossa! Como você pretende fazer isso!? – Estou surpreso com tudo isso. Como será que ela poderia me ajudar?

– Eu filmei tudo que aconteceu. Os garotos se matando, você segurando a faca… Tudo. E em alta resolução com a minha câmera.

– Sério! Nossa! Que bom! Obrigado! Muito obrigado! Agora você pode me tirar desse inferno! _ Falo com a mais pura alegria. Com isso eu poderia continuar com a minha vida. Ela chegou meio atrasada, não vou negar, mas isso conserta tudo.

– Não é bem o que eu planejava, Fabiano… – Isso me pega de surpresa. O que será que se põe entre mim e a minha liberdade?

– Como assim? Você não pode me dar o vídeo?

– Não é bem isso… Eu não posso simplesmente te dar o vídeo. Uma mão tem que lavar a outra entende? _ Eu sempre soube que essa filha da puta era uma psicopata. O que pode ser tão importante pra ela a ponto de deixar um homem preso?! – Eu preciso que você faça uma coisa pra mim antes, sabe?

– Claro! Qualquer coisa. O que você precisa?

– Eu quero Eliza morta.

– O quê?! Não! Eu não vou matar ninguém! Pode ir à merda com seu vídeo!

– Não! Eu só quero que você dê um jeito de encomendar a morte dela. Eu não posso ficar tão perto do fogo a ponto de fazer isso sozinha, sabe?

– Não… Eu não posso fazer isso. E por que você a quer morta? Eu não entendo.

– Acho que você se lembra o que ela fez na formatura, não lembra?

Como eu poderia me esquecer da formatura? Júlia era uma garota esquisita. Era esquisita como eu e o Fred, mas não era tão forte. E, assim como eu, Fred, e todas as pessoas esquisitas, ela pagou por isso. E com certeza pagou mais do que qualquer outro por ainda não saber o que ela era. Acreditava ser algo que não era e por isso se esforçava para ficar perto das pessoas que mais podiam machucá-la. Mas toda a dor infligida a ela pelas outras garotas não foram o suficiente para que ela desistisse de ser aquilo que ela agora mais odeia. Sempre a humilhavam e zombavam dela, mas ela sempre agüentava firme como se fosse uma inofensiva brincadeira. A formatura foi o impacto que a tirou da órbita de suas supostas amigas. Júlia foi humilhada na formatura. Seu vestido novo fora banhado em ponche a mando de Eliza e depois de lágrimas. Depois disso ainda foi obrigada a agüentar a risada de todos. As crianças podem realmente serem cruéis.

– Eu entendo que você queira sua vingança, mas não quero participar disso. Eu não vou arranjar a morte de ninguém e pode tirar seu cavalinho da chuva se você pensa o contrário! – A parte mais difícil de falar com ela aqui é não poder conter minha fúria, mas ter que sussurrar ao mesmo tempo.

– Então apodreça aqui pelos próximos quatro anos, Fabiano. Eu não ligo. Eu posso destruir o vídeo.

De repente um plano vem a minha cabeça. É melhor aceitar essa proposta. Fico um tempo calado para que seja convincente. Volto a falar como se tivesse desistido da guerra.

– Ok, eu dou um jeito de arranjar a morte da garota. Mas tem uma coisa que você não pensou. Como eu posso fazer alguma coisa atrás das grades?

– É exatamente por isso que você é perfeito. Você tem acesso a um bando de pessoas que fariam o serviço.

– Mas essas pessoas também estão presas, elas também não podem fazer muito, sabe?

– Eu não ligo. Você dá um jeito. Boa sorte com tudo. – Ela se levanta pra ir embora.

– Espera. E como eu vou saber se você está falando a verdade?

– Você não pode, Fabiano. Você não passa da porra de um peão. Mas acredite, eu não estou mentindo. Como é que eu saberia que você é inocente?

– Ok. Mas quero que saiba que se você estiver mentindo eu é que vou te matar. Com as minhas próprias mãos.

– Não estou. Aqui está meu número se alguma coisa acontecer. – Me dá um pedaço de folha de papel com seu celular escrito. Ela sai da sala e me deixa sozinho para pensar em como eu vou resolver tudo isso.

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